ENDOMETRIOSE

 

 

É uma doença benigna em que tecido endometrial funcionante está presente em locais fora da cavidade uterina. A endometriose geralmente fica confinada às superfícies peritoneais ou serosas dos órgãos intra-abdominais, comumente os ovários, ligamento largo-posterior, fundo-de-saco posterior e os ligamentos uterossacrais. Localizações menos comuns incluem as superfícies serosas do intestino delgado e grosso, ureteres, bexiga, vagina, cicatrizes cirúrgicas e cavidade pleural.

 

Etiologia e epidemiologia :

 

A hipótese mais amplamente aceita é que as células endometriais são transportadas a partir da cavidade uterina e se implantam em locais ectópicos. O fluxo retrógrado de tecido menstrual através das trompas de Falópio poderia provocar endometriose intra-abdominal, enquanto que os sistemas linfático ou circulatório poderiam disseminar a endometriose para locais distantes (p. ex., a cavidade pleural). Outra explicação possível é a transformação de epitélio celômico em glândulas semelhantes ao endométrio (isto é, metaplasia celômica). Existe evidência de um padrão de herança familiar, com a ocorrência de endometriose aumentada em 6% em parentes de primeiro grau de mulheres com endometriose. Fatores adicionais associados ao aumento de incidência incluem gravidez tardia, raça oriental e anomalias do ducto mülleriano.

Embora a incidência descrita varie, a endometriose é encontrada comumente em 10 a 15% das mulheres entre as idades de 25 e 44 anos que estão menstruando ativamente. O uso aumentado de laparoscopia diagnóstica também detectou endometriose em adolescentes. Estima-se que 25 a 50% das mulheres inférteis apresentem endometriose. Em pacientes com endometriose grave e distorção da anatomia pélvica normal, a incidência de infertilidade é alta porque ficam prejudicados os mecanismos de captação do óvulo e transporte tubárico. No entanto, algumas pacientes com endometriose mínima e anatomia pélvica normal também são inférteis e podem apresentar uma incidência aumentada de disfunção da fase lútea, síndrome do folículo ovariano luteinizado sem ruptura (“oócito aprisionado”), produção aumentada de prostaglandina peritoneal e/ou atividade macrofágica peritoneal aumentada como responsáveis pela fertilidade diminuída.

 

Sintomas e sinais :

 

As manifestações clínicas são dor pélvica, massa pélvica, alterações menstruais e infertilidade. Algumas mulheres com endometriose grave podem ser assintomáticas, enquanto outras, com doença mínima, podem apresentar dor incapacitante. A dispareunia e dor pélvica na linha média, no pré ou perimenstrual, particularmente começando após vários anos de menstruações sem dor, podem ocorrer. Tal dismenorréia é um indício diagnóstico importante. Lesões no intestino grosso ou bexiga podem provocar dor à defecação, distensão abdominal, sangramento retal com as menstruações ou dor suprapúbica durante a micção. Os implantes endometrióticos nos ovários ou estruturas anexiais podem formar um endometrioma (isto é, uma massa cística de endometriose localizada em um ovário) ou aderências anexiais, dando origem a uma massa pélvica. Ocasionalmente, ruptura ou escape de um endometrioma podem estar associados a dor abdominal aguda.

 

Diagnóstico :

 

Suspeita-se do diagnóstico com base nos sintomas descritos anteriormente e/ou exame físico. O exame pélvico pode ser normal ou pode revelar lesões visíveis na vulva ou cérvix, na vagina, umbigo e em cicatrizes cirúrgicas. Pode haver um útero retrovertido e fixo, ovários aumentados ou nodularidade uterossacral.

O diagnóstico pode ser estabelecido apenas pela visualização das lesões, geralmente por endoscopia da pelve. Na ausência de lesões visíveis ao exame físico, a modalidade diagnóstica primária é a visualização direta e/ou biópsia de lesões por laparoscopia. O diagnóstico pode também ser feito durante laparotomia ou pela sigmoidoscopia ou cistoscopia. Microscopicamente, os implantes endometrióticos são formados por glândulas endometriais e estroma, estruturalmente idênticos ao endométrio (a maioria dos implantes pode sangrar durante a menstruação). Por definição, é necessária a presença tanto de glândulas quanto de estroma para realizar o diagnóstico de endometriose. Estes tecidos contêm receptores de estrogênio e de progesterona que permitem o crescimento e diferenciação em resposta às alterações seqüenciais nos esteróides ovarianos durante o ciclo menstrual. Portanto, o aspecto macroscópico (claro, vermelho, castanho, negro) e o tamanho destes implantes variam. Quando confinados à cavidade peritoneal, considera-se que o sangramento por estas lesões desencadeie um processo inflamatório seguido por depósito de fibrina e formação de aderências, que eventualmente, leva a distorção das superfícies peritoneais e da anatomia pélvica normal. Outros procedimentos diagnósticos (p. ex., ultra-sonografia, enema com bário, urografia EV, TC ou IRM) podem ser úteis para demonstrar a extensão da doença e acompanhar sua evolução, mas não são específicos ou adequados para o diagnóstico. Marcadores séricos em investigação para endometriose (p. ex., CA-125 e níveis de anticorpos antiendometriais) podem ajudar a monitorar a doença, mas ainda precisam de maior refinamento. Os estudos de infertilidade podem estar indicados.

O estagiamento da doença como mínima, leve, moderada ou grave é importante para formular uma estratégia de tratamento e avaliar a resposta a terapia. Os critérios de estagiamento revisados da “American Fertility Society” (Sociedade Americana de Fertilidade) são baseados na localização dos implantes, presença de endometriose superficial ou profunda, e presença de aderências finas ou densas. Este esquema de classificação divide o grau de4646 endometriose nas categorias mínima, leve, moderada ou grave. A  mostra um exemplo de endometriose no estágio III (moderada).

 

Tratamento :

 

O tratamento precisa ser individualizado de acordo com a idade, sintomas, desejo de engravidar e extensão da doença da paciente. Em geral, as modalidades de tratamento incluem a supressão clínica da função ovariana para interromper o crescimento e atividade dos implantes endometriais, ressecção cirúrgica conservadora da maior quantidade possível de endometriose, uma combinação das 2 terapias e a cirurgia extirpadora (histerectomia abdominal total com ou sem salpingooforectomia unilateral ou bilateral).

Existem várias drogas que suprimem a função ovariana e/ou o crescimento do tecido endometrial. Estas estão listadas na TABELA 172.1 com exemplos de dosagens e efeitos colaterais. Os contraceptivos orais contínuos são usados menos comumente porque atualmente existem outros agentes, como o danazol (uma antigonadotropina que bloqueia a ovulação) e agonistas do hormônio liberador de gonadotropina (GnRH) (que provocam um estado de hipoestrogenemia relativa e reversível). As taxas de gravidez com a terapia clínica variam de 40 a 60%. Não está claro que as taxas de fertilidade melhorem com o tratamento de endometriose leve ou mínima. É necessário enfatizar que a terapia clínica supressora ou a cirurgia conservadora não curam eficazmente a endometriose, e que a recorrência é observada na maioria das pacientes. Apenas a ablação total da função ovariana irá evitar a recorrência da endometriose. Os contraceptivos orais cíclicos administrados após a terapia clínica e/ou cirurgia conservadora podem retardar a progressão da doença e são recomendados em mulheres que querem adiar a gravidez.

Casos moderados a graves são tratados de forma mais eficaz pela excisão de tantos implantes quanto possível, mas preservando o potencial reprodutivo. As indicações para cirurgia incluem a presença de endometriomas (> 2 a 3cm), aderências pélvicas significativas, obstrução da trompa de Falópio e dor pélvica incontrolável e incapacitante, que não responde à terapia clínica. É preciso tomar cuidado para evitar a formação de aderências durante a cirurgia pelo uso de técnicas microcirúrgicas. Com a abordagem cirúrgica laparoscópica mais recente, é possível em alguns casos, fazer a eletrocauterização de lesões peritoneais ou ovarianas, ou realizar a vaporização ou excisão com um laser de CO2 , argônio ou neodímio:ítrio-alumínio-granada (Nd:YAG). As taxas de gravidez após esta abordagem cirúrgica conservadora são aproximadamente proporcionais à gravidade da endometriose e variam de 40 a 70%. Em pacientes com dor pélvica na linha média, a ressecção laparoscópica dos ligamentos uterossacrais com eletrocauterização ou terapia por laser podem reduzir o grau de dor. Para pacientes submetidas à cirurgia conservadora com ressecção incompleta da doença, o tratamento clínico supressor adjuntivo pode aumentar as taxas de fertilidade. A cirurgia extirpadora deve ser reservada para pacientes com dor pélvica incontrolável que já completaram sua prole. Depois da remoção do útero e dos ovários, a terapia de reposição com estrogênios pode ser introduzida no pós-operatório ou pode ser postergada por 4 a 6 meses se ainda restar doença significativa in situ. A terapia clínica supressora adjuntiva pode ser necessária neste intervalo. Na paciente mais jovem, deve-se considerar a preservação da função ovariana, embora tenham sido descritas taxas de recidiva de 3,5 a 85%.

 

 

 

Tabela 172.1 : TERAPIA CLÍNICA SUPRESSORA HABITUALMENTE USADA PARA ENDOMETRIOSE

 

 

 

 

 

Drogas

Dose

Efeitos colaterais

Contraceptivos orais combinados de estrogênio/progestina*

(30 –35g de etinil estradiol)

1 – 2 comprimidos/dia durante 4 – 6 meses

Edema abdominal, dor das mamas, aumento do apetite, edema, náusea, sangramento de retirada, trombose venosa profunda

Progestogênios

(acetato de medroxiprogesterona)

 

20 – 30mg/dia VO durante 6 meses; 100mg IM a cada 2 semanas durante 2 meses; depois 200mg IM mensalmente durante 4 meses

Sangramento de retirada, labilidade emocional, depressão, vaginite atrófica

 

Danazol

400 – 800mg/dia VO durante 4 - 6 meses

Ganho de peso, acne, voz mais grave, hirsutismo, fogachos, vaginite atrófica, edema, cãibras musculares, sangramento de retirada, diminuição do tamanho das mamas, labilidade emocional, disfunção hepática, síndrome do túnel cárpico, efeitos adversos sobre os lipídios

 

Agonistas de GnRH

Nafarelina

Leuprolide

Leuprolide depot

 

400 – 800mg/dia intranasal

1mg/dia s.c.

3,75mg IM a cada 30 dias

Fogachos, ressecamento vaginal, desmineralização óssea, labilidade emocional

 

 

 

GnRH = Hormônio liberador de gonadotropina.

* Monofásico.

Roberto Rangel Bongiovanni, n º : 279-6

 

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