(Adenocarcinoma
do Útero) Das doenças malignas que afetam as mulheres, o carcinoma endometrial
coloca-se em 4º lugar por ordem de freqüência, após a mama e os cânceres
colorretais e do pulmão. O adenocarcinoma do útero origina-se dos elementos
epiteliais do endométrio e ocorre geralmente na pós-menopausa, com pico incidência
entre as idades de 50 e 60 anos.
O
carcinoma endometrial é mais freqüente em mulheres com tumores de ovário
produtores de estrogênio; com hiperplasia endometrial adenomatosa prolongada e
especialmente atípica; com menopausa ou história de menstruações irregulares
e infertilidade. Obesidade, hipertensão, diabetes mellito, câncer de mama, e
condições que predispõem ao estrogênio não antagonizado (isto é, ausência
de ovulação e assim ausência de progesterona periódica) e história familiar
de câncer de mama ou de ovário são possíveis fatores predisponentes ao
carcinoma endometrial. O carcinoma endometrial difunde-se: 1. para baixo da
superfície da cavidade uterina até o interior do canal cervical; 2. através
do miométrio para a serosa e para o interior da cavidade peritoneal; 3. por
transplante, através do lume da trompa uterina para o ovário, ligamento largos
e superfícies peritoneais; 4. pela corrente sangüínea, produzindo metástases
à distância; ou 5. por via linfática. A disseminação descendente pode levar
à estenose cervical e piometria. As metástases vaginais podem causar secreção
mucossanguinolenta, a qual leva ao exame e ao diagnóstico das metástases nos
estágios mais avançados.
O
sintoma cardinal é o sangramento uterino inapropriado, como qualquer
sangramento na pós-menopausa, ou a metrorragia recorrente na paciente em pré-menopausa;
cerca de um terço de todos os casos de sangramento na pós-menopausa são
devido ao carcinoma endometrial. A presença de miomas não deve levar à
complacência com respeito à presença de um sangramento anormal, especialmente
em mulheres suscetíveis . Uma secreção mucóide ou aquosa pode preceder o
sangramento por várias semanas ou meses.
No
diagnóstico, o teste de Papanicolaou é útil, mas não confiável, uma vez que
30 a 40% dos esfregaços são falsos-negativos. A obtenção de material celular
por aspiração da endocérvix pode aumentar a taxa de detecção do teste de
Papanicolaou para 70%. A lavagem vaginal deve ser evitada por pelo menos 24h
antes do exame. Uma boa biópsia endometrial pode mostrar uma achado positivo de
carcinoma em 92% da vezes. Contudo, se o câncer não for diagnosticado o
procedimento diagnóstico de escolha será a curetagem fracionada (curetagem
endocervical, sondagem do útero, dilatação do canal cervical, e curetagem do
endométrio). Este procedimento permite a confirmação histológica, a graduação
do tumor e seu estagiamento com relação à extensão, incluindo a determinação
de qualquer extensão da lesão para o interior da cérvix, o que é importante
no planejamento da terapia. Deve-se ter cuidado com a biópsia, com a sondagem
do útero, ou com a curetagem, uma vez que estes procedimentos podem causar
perfuração.
Uma
UEV, cistoscopia, proctossigmoidoscopia, enema com bário e radiografia de tórax
devem ser obtidos antes da terapia ser iniciada. Outros estudos (p. ex.,
mamografia, mapeamentos ósseo e hepático, arterio e linfagiografia podem ser
considerados e realizados, quando se julgar necessário, mas não representam
parte do procedimento de rotina utilizado para estagiamento.
O
sistema de estagiamento desenvolvido pela “International Federation of
Gynecology and Obstetrics” (Federação Internal de Ginecologia e Obstetrícia
– FIGO) para o carcinoma endometrial, recentemente alterado de clínico para
cirúrgico, está esquematizado na tabela 1.
Tabela
1. ESTAGIAMENTO DO CARCINOMA
ENDOMETRIAL COMO ORIENTAÇÃO PARA TRATAMENTO E PROGNÓSTICO*
Estágio
Definição:
|
IA
(G1,2,3)** |
Tumor
limitado ao endométrio |
|
IB
(G1,2,3) |
Invasão
até < meio miométrio |
|
IC
(G1,2,3) |
Invasão
> meio miométrio |
|
IIA
(G1,2,3) |
Tumor
que envolve apenas glândulas endocervicais |
|
IIB
(G1,2,3) |
Invasão
do estroma cervical |
|
IIIA
(G1,2,3) |
O
tumor invadiu a serosa e/ou órgãos anexiais e/ou os resultados do citológico
peritonel são positivos |
|
IIIB
(G1,2,3) |
Metástases
para a vagina |
|
IIIC
(G1,2,3) |
Metástases
para linfonodos pélvicos e/ou paraaórticos |
|
IVA
(G1,2,3) |
O
tumor invadiu a mucosa da bexiga e/ou intestino |
|
IVB |
Metástases
à distância, incluindo linfonodos intra-abdominais e/ou inguinais |
*
Estagiamento como descrito pela “International Federation of Gynecology and
Obstetrics”(FIGO), 1988. Como o câncer de corpo uterino atualmente é
estagiado cirurgicamente, os procedimentos usados anteriormente para diferenciação
dos estágios não são mais aplicáveis. No entanto, como pode haver um pequeno
número de pacientes que serão tratadas primariamente com radioterapia, o
estagiamento clínico adotado pela FIGO em 1971 ainda se aplica nestes casos,
mas deve ser tentada a designação daquele sistema de estagiamento. Idealmente,
no estagiamento atual, a largura do miométrio deve ser medida juntamente com a
largura da invasão tumoral.
**
G1= £ 5% de um padrão de crescimento sólido não escamoso ou não morular;
G2= 6 – 50% de um padrão de crescimento sólido não escamoso ou não
morular; G3= 50% de um padrão de crescimento sólido não escamoso ou não
morular. Atipia nuclear notável, inadequada para o grau de arquitetura, eleva o
grau de um tumor de 1 ou 2 em um ponto. Em adenocarcinomas serosos,
adenocarcinomas de células claras e carcinomas de células escamosas, a graduação
nuclear tem precedência. Adenocarcinomas com diferenciação escamosa são
graduados de acordo com o grau nuclear do componente glandular.
Nos
EUA, o enfoque cirúrgico inclui a histerectomia total abdominal extrafascial
com uma ampla bainha vaginal, combinada com salpingoofo-rectomia bilateral e
amostra do linfonodo retroperitoneal nas áreas pélvica e paraaórtica. A
histerectomia radical com dissecção retroperitoneal dos gânglios linfáticos
não é necessária a não ser que a cérvix esteja nitidamente envolvida.
A
terapia com progesterona em pacientes com doença avançada ou recorrente leva
à regressão em 35 a 40% dos casos. Podem ser administradas doses altas e contínuas
de derivados de progesterona não estrogênica (caproato de hidroxiprogesterona
1g/semana IM ou acetato de medroxiprogesterona 500mg/ semana, IM) ou acetato de
megestrol 20 a 40mg, 4 vezes/dia VO. O tratamento continua indefinidamente, caso
for notada resposta favorável. Este tratamento tem produzido a regressão de
metástases pulmonares, vaginais e mediastinais; e raramente são notadas
dificuldades com retenção de sódio e água. As remissões podem perdurar por
2 ou 3 anos ou ocasionalmente, por mais tempo.
Recentemente,
a quimioterapia citotóxica foi utilizada com progestinas para o câncer metastático.
A quimioterapia mensal que combina ciclofosfamida 500mg/m2 ,
doxorrubicina 50mg/m2 , e cisplatina 50mg/m2 ,
administrados EV, mais acetado de megestrol 120mg/dia VO melhorou a resposta
objetiva total em 60% dos pacientes. Monitorações freqüentes e o conhecimento
completo da toxicidade potencial são essenciais com este esquema quimioterápico.
O prognóstico é influenciado pela aparência histológica e estágio do tumor, pela idade do paciente (mulheres mais idosas têm um prognóstico pior), e pela disseminação do tumor antes da terapia. As taxas de sobrevida por 5 anos para o carcinoma endometrial são encorajadoras. Quase 63% das pacientes vivem sem evidência de doença por 5 anos após o tratamento; cerca de 28% sucumbem durante 5 anos de tratamento; 9% estão vivas com a doença ainda presente. Na doença em Estágio I, a sobrevida relatada para 5 anos está entre 70 a 89%.
Raramente,
as doenças malignas originam-se de outros componentes histológicos do útero,
p. ex.; sarcomas, carcinossarcomas, e tumores mesodérmicos mistos. Os
resultados da terapia nesses casos são uniformemente pobres. Os miomas
degenerados raramente tornam-se sarcomatosos, mas quando o fazem, caso a lesão
tenha permanecido no interior do mioma, as taxas de cura com a histerectomia
aproximam-se de 80%.